ANÁLISE: VINLAND SAGA

 

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Descobri o anime Vinland Saga há pouco tempo, graças a uma pessoa que tem um talento absoluto de importunação (risos). Tenho certeza que no momento em que ele estiver lendo esse trecho poderá pensar: “De todas as minhas infinitas qualidades ela vai falar JUSTO ESSA?” (risos)
É justo essa, mas é com carinho. No final das contas a importunação foi tão eficiente que eu cedi. E contra as minhas expectativas iniciais sobre anime: Eu fiz uma boa escolha.

Considere-se, leitor, uma humilde análise de uma mulher jovem e psicóloga, que procura ver o mundo de maneiras profundas e não superficiais, na tentativa de integrar as coisas que são importantes.
Nessa análise vão conter perspectivas psicológicas e interpretações espirituais em uma linha religiosa judaico-cristão.

Alguns podem estar se perguntando, é possível integrar psicologia com espiritualidade, já que hoje vivemos uma polarização social a nível mundial?
Pois bem, considere que o texto a seguir é uma interpretação totalmente pessoal de uma pessoa que não enxerga a vida de maneira fragmentada, mas que procura olhar “por detrás” dos campos rasos.

Ah, longe de mim ditar regras, sinta-se a vontade de criticar ou elogiar meu texto. Ele está sendo escrito enquanto faço repouso de uma questão de saúde. Mas já adianto, o texto trará muitos spoilers, se não quiser se sentir enviesado pela minha interpretação, eu sugiro que você assista primeiro e depois retorne para compartilhar suas impressões.



INTRODUÇÃO 

A série é uma saga épica viking escrita por Makoto Yukimura, um mangaka¹ japonês. Ela conta a história de Thorfinn, filho de Thors, um jovem sedento por vingança sobre a morte de seu pai, morto de maneira injusta por homens infames. Thorfinn, ainda com 6 anos, jurou vingar a morte de seu pai de maneira digna, como um guerreiro viking através de um duelo com Askeladd. Ele passa a vida toda com esse objetivo, se aperfeiçoando na arte da guerra e no combate direto, a fim de desenvolver habilidades suficientes para enfrentar seu rival e assassino de seu pai.
Durante 10 anos de sua vida, ele refina todos os seus movimentos, mas o que ele não contava é que a vida tem maneiras muito interessantes de recalcular rotas pelas quais não estávamos esperando…

Thorfinn, já cheio de marcas na vida, passa por mais um choque que irá definir todo o futuro dela; tendo que novamente tomar decisões que reavaliam suas perspectivas de sentido.

A série vai trazer de maneira envolvente e sem deixar fios soltos uma jornada impactante que revela temas atemporais da vida humana como: amadurecimento, tomada de decisão, perdão, redenção, responsabilidades e principalmente o  sentido da vida.
Além de que, são apresentados conceitos importantíssimos como: honra, dignidade, lealdade, injustiça e amizade.
O convido a mergulhar comigo nessa jornada!
¹: Mangaká é o artista ou autor criador de mangás (quadrinhos japoneses), responsável por ilustrar e, na maioria das vezes, escrever o enredo de suas próprias obras. A palavra combina "mangá" (quadrinho) e "ka" (criador/especialista).



ANÁLISE


Vinland Saga é envolvente na narrativa e trata-se de uma animação de baixo estímulo, embora tenha episódios com um tanto de excesso de sangue, não é cansativa por ter tantos efeitos especiais. Considerando uma era digital em que estamos frequentemente conectados a redes sociais, e em que a informação muda a cada instante, Vinland prende sua atenção de maneira fluída, você se conecta com a história e fica curioso para descobrir o que vai acontecer, mas sem se sentir hipnotizado. As relações entre os personagens trazem você a essa realidade previsível com uma expectativa saudável e pouco eletrizante. 

Veladamente você torce para a redenção dos personagem, esperando que eles se tornem melhores com a dor, embora nem sempre isso seja possível da maneira que gostaríamos, ainda sim é possível aprender com os erros cometidos. Você se conecta com o personagem, passa a entender suas emoções e sente a sua dor profundamente! 


Das outras experiências que tive com animes, sentia que era ativado um lado melancólico meu, já que boa parte das histórias se tratava de temas importantes, como: perdas significativas, reconstrução de identidade e busca por novos sentidos existenciais. Temas que tocam no âmago da alma, já que, indiscutivelmente, passaremos ao longo da vida; encontrar histórias que nos conectam ajudam a aliviar o vazio existencial que esses temas provocam.

Thorfinn, ele é o personagem principal, mas sem uma aura de protagonista, muito pelo contrário, a sua história se integra com as dos outros personagens de maneira muito fluída, já que os outros passam a desempenharem papeis fortes também complementando a história do herói…

A série já quebra todo o fluxo tranquilo com a morte do Thors, pai de Thorfinn. Personagem altamente misterioso, com palavra que não faz curva e autoridade imponente. Sua morte épica desencadeia toda a história de luto de Thorfinn, que com apenas 6 anos, se vê em um mundo completamente sozinho e traumatizado, tendo que vagar pela vida sendo conduzido pelo  assassino de seu pai.

Talvez a cena mais dura não tenha sido a morte traumática de Thors, mas o ato de matar feito por Thorfinn aos 6 anos. Essa cena, com toda a certeza, em minha opinião foi a  mais impactante de toda a primeira temporada.
Ao longo da série, todas as vezes que aparecia esse tema sobre assassinar alguém pela primeira vez, é visto pelos outros personagens como um simbolismo de emancipação e coragem: Thorfinn, Canute, Askeladd, Olmar… Quando na verdade todas essas mortes são simbolicamente como o fim da inocência e como um portal para a realidade. “Eu agora sinto o peso da responsabilidade que adquiri de ferir o bem mais profundo e frágil que é a vida de alguém”
Isso gerou marcas tão profundas em cada um dos personagens, que passou a decidir qual seria o caráter de cada um.
A série não está afim de mostrar o personagem “bonzinho” ou o “malzinho”, ela está nos mostrando que existe dualidade em cada ser-humano e que em tempos sombrios, até mesmo o mais piedoso dos homens pode errar e ferir seu próximo.


 Me lembrou um pouco a história de Davi, que biblicamente, é descrito como um homem segundo o coração de Deus², mas que cometeu pecados gravíssimos, deixando marcas perpétuas em sua vida. Porém o plot twist é que, embora tenha cometido esses erros ele se arrependeu e reconstruiu sua vida buscando a redenção de Deus.
No livro Pirkei Avot - ética dos pais³, são apresentados valores milenares que moldam identidades de grandes pessoas ao longo da nossa história, vemos uma relação com a série em que escolhas moldam caráter e cada atitude contribui para quem você vai se tornar.

A cisão da juventude com vida adulta retratada pela morte de alguém, me remete a um simbolismo de individualidade. Essa cisão causada pelo rompimento da vida é algo grandioso e tão absoluto que torna os personagens capazes de tomar decisões por si mesmos.
Em hebraico existe uma expressão chamada de “Lech Lecha” descrita na passagem de Abraão no livro de Gênesis da Bíblia, essa expressão significa “Vai por ti mesmo” se apresenta como simbolismo de autonomia, processo de individuação, confiança no desconhecido e, principalmente, construção de identidade a partir da quebra com o padrão familiar  e a elaboração do seguinte questionamento: quem você é quando não está preso ao que esperam de você?

Abraão rompeu com a família e passou a construir a própria história de maneira a cumprir os preceitos de Deus. Nem todos os personagens de Vinland Saga mantiveram um caráter adequado e justo em suas decisões, mas todos passam lições valiosas de aprendizados de longo prazo. Mas é unânime, a autonomia e a emancipação veio pela dor, ela foi o principal combustível de mudança estrutural em cada um dos personagens. O luto por seus cuidadores e entes queridos foram tão significativos que trouxeram marcas pela vida toda.   


²: Ler Atos 13:22
³: Pirkei Avot - Ética dos pais: livro judaico sobre conduta moral, caráter, ética e identidade alinhada aos princípios divinos instaurados por Deus. Sugiro a leitura do livro que você encontra facilmente navegando pela internet.


Para vocês que estão me conhecendo agora, minha linha de trabalho como psicóloga é muito voltada para adolescentes e jovens adultos, que carinhosamente os chamo de “pós-adolescentes”, considerando que a ciência tem avançado em estudos e terem descoberto que o córtex pré-frontal responsável pelas funções de tomada de decisão e execução de tarefas, ainda não está totalmente desenvolvida aos 18 anos, idade considerada legalmente para todos como o marco da vida adulta.

Frequentemente em minhas vivências pessoais e profissionais, alguns temas são desafiadores e complexos aos mais jovens, como: responsabilidades, tomada de decisão, amadurecimento, empatia e, principalmente, sentido de vida. Vinland Saga mostra claramente esses conceitos de maneira significativa.

Mas, um ponto que gostaria de abrir aqui são as doenças mentais apresentadas na séries como a depressão e o TEPT (Transtorno de Estresse pós-traumático) vivenciado por Thorfinn.
Na segunda temporada, Thorfinn aparece, mas dessa vez de um jeito totalmente diferente. Uma aparência desleixada e um jeito franzino que apaga qualquer traço de um guerreiro que um dia foi.

Em cenas como a de Thorfinn descrevendo a falta de sentido na vida em ser cortado muitas vezes até chegar a possível morte, ou a cena como sinal de isolamento profundo como escravo, a baixa energia em reconstruir sua identidade, desesperança, culpa excessiva e absoluta tristeza por um passado irremediável. Além do TEPT, com cenas de flashbacks do passado, pesadelos frequentes, pensamentos intrusivos e as fortes reações físicas ao lembrar.

Tudo isso só foi possível de ser amenizado com os laços de amizade com Eirin, Arnheid, Gran-Mestre e ouso dizer que com Cobra também.
Todos ali tinham suas dores, mas através do pertencimento ao grupo e a sensação de cura que os bons afetos trazem ajudou a Thorfinn, assim como todos os outros a se reintegrar novamente em seus fragmentos estilhaçados pela guerra e perdas significativas. Com o amadurecimento da vida, cada indivíduo atribui experiências a esses conceitos, consolidando em seu psicológico.

Na psicanálise, se descreve que cada trauma é um sinal deixado na nossa psique que vai impactar a nossa vida, até o momento que seja processado e deixe de nortear as nossas ações. Isso não significa que os traumas desaparecerão, mas que será um caminho de acomodação no nosso inconsciente á fim de gerar menos sofrimento

Ao final da segunda temporada, vemos um Thorfinn como homem completo, caracterizado sem impedimento da mãe em sua nova aventura, integrando a infância traumática e o luto, com uma sublimação da dor sentida e causada aos outros.
Sabemos que não será necessária sequer uma terceira temporada, pois agora Thorfinn tem uma sabedoria forjada. Injustiça e Honra, fé e caráter, foram muito bem simbolizados e de maneira eficaz em Vinland Saga.

CONCLUSÃO
A pergunta que não me quer calar, e que me fez chegar até aqui é: O que achei da obra?
Teoricamente meu repertório de comparação é bem curto para dizer com maior propriedade, mas eu gostei muito. Me senti completamente envolvida e acredito que consegui expressar em texto pelo menos uns 60 % ou 70% da minha linha de pensamento, visto que existem coisas que não precisam ser explicadas mas sim, apenas sentidas.

Minha recomendação é que você assista e volte aqui para me contar sua impressão. Caso tenha feito algum link com outros temas, adoraria saber também. Me senti tocada, e estou me aventurando no mundo dos animes, a fim de enriquecer minha bagagem cultural; algumas cenas mais grotescas com sangue excessivos podem ser desconfortáveis, mas acredito que elas dão sentido ainda maior sobre a fragilidade da vida, o que traz muitos impactos significativos para a trama e nossa capacidade de tornar intrínsecos os conceitos duramente aplicados na série.
Indico Vinland para aqueles mais cansados dos filmes Hollywoodianos que apresentam com muitos efeitos, até que histórias legais, mas que tem sentido falta de algo um pouco mais profundo e com poucos estímulos.
Quero me sentir calma e segura, e sublimar meus maiores traumas, assim como Thorfinn o fez no final da segunda temporada: integrar tudo para um bem maior, e construir um Lech Lecha de maneira incorporada com a realidade.

Vale a pena!
Senti falta de escrever, é bom estar de volta!
Até a próxima.




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